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  • Frantz Soares

De pisos, paredes, refugos e pinturas

Atualizado: 26 de ago.

Por Paula Ramos





Quando se entra no ateliê de Frantz, ele logo comenta, apontando para o piso: “Isso é uma pintura”. O primeiro e genuíno sentimento é de estranhamento e de perplexidade; afinal, está-se caminhando sobre uma obra de arte. Olhando meio debochado, ele completa: “Eu não acredito nisso, na pintura como uma coisa divina”. No piso propriamente dito, estende-se uma grande superfície, geralmente de tela, que às vezes também pode ser feita a partir de papéis unidos de maneira estruturada, quase cartesiana, por uma fita adesiva. O sentido dessa cobertura é, em tese, proteger o chão dos respingos de tinta, dos resíduos do processo de pintar. Nesse mesmo ateliê, passam semanalmente vários alunos de Frantz, e ali, naquela tela estendida, vão-se então acumulando tintas, pegadas, tocos de cigarro, marcas de cavaletes, de latas, camadas e camadas, dezenas delas, de restos. Todos materiais mortos, o que seria o lixo do ateliê. Forrando as paredes, novos painéis, com sedimentos semelhantes, acrescidos de marcas geralmente retangulares, indicando o desenho e o limite dos chassis.


Todos esses resquícios, que há meses se acumulam na extensão quer do papel, quer da tela, manchando-a e marcando-a, são elementos do acaso, registrando o processo de pintar e constituindo o que o artista costuma chamar de campo de batalha. Eles não foram pensados e estudados. A maioria deles, inclusive, nem de Frantz são, mas de seus alunos. Novamente movidos por uma emoção legítima, muitos poderão se questionar: “Mas o que ele faz então? Por que essas pinturas levam o seu nome?”.


O exercício a que Frantz se propõe reside no olhar. Seu gesto é o de olhar e eleger. No caso dos trabalhos em tela, é ele quem estabelece o corte, o isolamento da imagem, a composição da mesma. Está aí a sua assinatura. Já nas pinturas sobre papel não há escolha. Os módulos são apresentados em sua completude. E o artista novamente nos provoca: “Pintura não é superfície e cor?” Sim, para Frantz, pintura é superfície e cor, mas que emociona. Andando pele ateliê, ele vai apontando futuras pinturas, espaços de sedimentação e de construção em que percebe reflexões não apenas sobre a passagem do tempo e suas máculas, mas, notadamente, sobre a própria essência da pintura e sobre a emoção que manchas de tinta e de pigmentos diversos podem nos provocar. Tudo, ali, naquele laboratório, sendo-lhe dado o tempo necessário, é passível de ser visto como pintura. Daí a sua vastíssima produção, recolhendo e elegendo esses refugos, dando-lhes outros significados. Dejetos em que a maioria vê lixo, mas nos quais Frantz percebe beleza. E então cria livros, caixas de vidro com sobras de tintas, formas escultóricas estabelecidas a partir dessas mesmas sobras. Tudo resultado dos remanescentes de outros trabalhos, de outras pessoas. Ele confessa que nunca sabe se vai funcionar, mas faz, e o faz porque gosta, regido pelo desejo, não pelo mercado. Nunca pelo mercado. Daí também as exposições bissextas.


O conjunto de trabalhos aqui apresentado traz um recorte desse universo de Frantz, com alguns fragmentos de paredes e de pisos. Materiais mortos nos quais o artista, com seu olhar amoroso, insufla vida. Se essas imagens conseguirem provocar o espectador, incomodá-lo e motivar uma reflexão sobre as convicções e hesitações em torno do que se considera pintura, estarão cumprindo o seu desígnio. Afinal, uma das virtudes da arte contemporânea é a desestabilização que ela provoca nos nossos sentidos e certezas.


Paula Ramos é Jornalista e Doutorando em História, Teoria e Crítica de Arte/UFRGS.

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