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  • Frantz Soares

Desenhos - Eunice Gruman

Por Eunice Gruman

Junho de 1989




Apesar da sensação de liberdade que transmite, a arte de Frantz é profundamente cerebral, pensada e intuída elemento por elemento. Tal característica se evidencia ainda mais na atual mostra, em que foram reunidos trabalhos sobre papel dos últimos anos, sem qualquer preocupação de unidade temática. Contudo, todas as peças guardam grande coerência entre si, na medida que se constituem em dados de um mesmo processo, de uma mesma busca.

A idéia de evolução corrobora o que sentimos ao observar a maior parte destes trabalhos: uma atração, um desejo penetrante de mergulhar nestes quadros. Eles insinuam profundidade pela sobreposição de camadas e mais camadas de tinta, todas entre-vistas ou adivinhadas, como em um palimpsesto. Este desejo de buscar a origem, o princípio oculto, como um geólogo ou antes um arqueólogo o faria, é talvez o que de mais importante a obra de Frantz suscite em nós.

Embora tenha realizado viagem de estudos a Alemanha, terra do expressionismo por excelência, Frantz vincula-se mais claramente ao expressionismo abstrato de raiz, aquele surgido nos Estados Unidos após a Segunda Guerra, como uma forma particular de expressão do Novo Mundo, em resposta a arte européia do princípio do século. Pode parecer estranho relacionar Frantz com as experiências de Pollock, mas devemos lembrar que a chamada “action paintig”, em que o artista pinta enquanto circula em torno da tela colocada no chão, tende a criar em efeito concêntrico, característico também em Frantz. Não por acaso, algumas das peças desta mostra são quadradas, podendo ser apreciadas de qualquer angulo. O redemoinho assim formado nos puxa para o interior do quadro, para descobrir um preto nuançado de azul ou de verde, e cores que são como degraus, conduzindo cada vez mais para dentro.

No aspecto formal de seus planos, porém, em sua vibração que tende a uma estabilidade, Frantz aproxima-se de outro papa da expressão norte-americana: Rothko e seu misticismo, latente também no artista gaúcho, que no entanto substitui a solenidade daquele por uma inquietação que tem muito a ver com a vida urbana neste final de século.

Falar em vida urbana lembra uma vertente das mais importantes no trabalho de Frantz: o grafiti, que já foi explicito e atualmente é uma influência. O preto e o vermelho dos sprays vão ficando para trás, o gestual também, mas o sentido de ação permanece. Na verdade, as pinceladas de Frantz parecem antes vestígios de um movimento do que imagens em si - movimentos que tais como as cores, uma vez existiram sob o que agora se vê em primeiro plano. Estes planos são reforçados pela necessidade, surgida mais recentemente no artista, de estabelecer limites para certas formas. Às vezes estes limites são linhas cheias, cercas fechadas contendo um mundo elíptico. Geralmente porém são apenas sugeridos por marcos que, como cantoneiras, sustentam lembranças ancestrais, como conteriam antigas fotografias.

Aparentemente selvagem , iconoclasta, mas em realidade meditativo, o movimento em espiral na obra de Frantz é o de um balé, mas de um balé contemporâneo, talvez em ritmo de jazz. Com insinuações místicas e sutis diferenças tonais, que mais descobrimos quanto mais observamos cada peça, Frantz faz com que procuremos uma genealogia, busquemos um princípio gerador - e temos certeza que, mergulhando em seus quadros, encontraremos em sua origem mais do que um papel em branco. O artista partiu daí para chegar até nós; a nós cabe percorrer o caminho inverso, atentando para o que nos diz a paisagem de cada estação deste percurso.

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