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  • Frantz Soares

Entrevista com Frantz




Apresentação:

Comecei a me envolver com arte ainda criança, pois com 12 anos de idade eu já gostava de arte. Porém, me questiono se eu gostava de arte ou se gostava das pessoas que se envolviam com arte. Eu morava em uma cidade do interior do Rio Grande do Sul – Rio Pardo – que, naquele momento, tinha muita atividade artística em função de projetos da Secretária de Cultura. Vários grupos de artistas iam a Rio Pardo desenhar em função da revitalização do patrimônio histórico, hoje Rio Pardo é uma cidade tombada pelo patrimônio histórico. Nesta época iniciei alguns contatos com vários artistas, tal como Danúbio Gonçalves, Paulo Porcela, Fernando Baril, De Curtis e, também conheci vários artistas emergentes, como a Karin Lambrecht, além de ter ficado muito amigo de Anico Herkovitz, e algumas amizades permanecem.

Fui deste modo, me envolvendo com arte e começando pelo desenho, sempre por iniciativa própria e me questionando se o que eu gostava era fazer o desenho ou estar no meio daquelas pessoas.

La pelos 14 ou 15 anos eu fiquei uma noite inteira acompanhando o Salomão Scliar – que é uma figura importante da fotografia no RS – nas discussões de uma produção pela cidade e aquilo me fascinava.

Lá pela década de 80 me preparei para a mudança para POA, e aos 19 anos fiz a primeira exposição no MARGS por convite da diretoria( Tatata Pimentel), um pouco antes eu havia participado do Salão do Jovem Artista – onde obtive uma menção honrosa. A partir dessa primeira exposição individual no MARGS surgiram inúmeras oportunidades em diversas galerias. Meu trabalho teve uma aceitação muito rápida. Então eu passei de 1982 até o final da década de 80 participando intensamente de salões e exposições: Salão Nacional, Salão Paranaense, Salão Paulista, eu produzia muito. No final da década de 80 achei necessário me isolar, continuei produzindo, porém sem expor essa produção, e, então, em 96 decidi voltar a participar do circuito artístico e mandei um trabalho para o Salão Paranaense.



Formação:

Eu não gosto do termo autodidata, pois eu não tenho formação universitária, mas, no entanto, eu ganhei duas bolsas na Europa – na Alemanha. Eu fiz a minha formação indo atrás da informação e não cumprindo currículo universitário. Interesso-me muito mais pela proximidade com o artista e com a possibilidade de esclarecer minhas dúvidas com eles.

Um caso interessante foi quando eu quis conhecer os procedimentos para a preparação de tela, pois me interessava muito a técnica – fui até a casa de Ado Malagoli, já professor aposentado da UFRGS, e acabamos “discutindo” por ele dizer que era um segredo de artista. Então fui até a casa do Iberê Camargo e ele me deu um Caderno de anotações com inúmeras fórmulas. Eu também visitava o Fernando Baril, artista que estava voltando da Europa com novidades. Eu acho extremamente fértil esse diálogo com os artistas e me questiono porque isso não acontece mais. A idéia de sujeito (artistas) inatingível talvez tenha surgido na década de 90. Existem artistas extremamente acessíveis e certamente essa troca é para eles também o reconhecimento do seu trabalho.


Produção Artística:

Comecei trabalhando com aquarela e acho uma técnica muito simples desde que sejam cumpridas suas regras. Para pintar aquarela existem determinadas tintas, tem papéis específicos, tem pincéis específicos, e quando se usa os instrumentos certos se faz a aquarela corretamente e quando não se usa não se faz nada. Meu trabalho é sempre com a tinta, e acabei escolhendo a tinta acrílica pela possibilidade que ela tem: eu posso fazer pastas, fazer aguados, agregar coisas, suprimir coisas, alterar composição. O acrílico é múltiplo.

Em 1981 comecei com acrílico, já trabalhei com óleo e também com têmpera ovo, alem da aquarela. Meu trabalho é realizado normalmente em séries. Também já fiz muito desenho de observação, e desenho de cidades históricas. Na década de 80 trabalhei com grafite, fiz esculturas e fiz gravuras. E atualmente eu trabalho com a apropriação do chão, com o aproveitamento dos restos de atelier. Estou mergulhado muito isso.



Quando iniciastes tua vida artística fazias uma pintura sem cor, somente em preto e branco, não era? Como passou a acontecer a cor em tua pintura?

Não, a minha pintura era muito colorida, em 82 e eu fazia muita aquarela de paisagens de campo, bem bucólicas, com motivos urbanos da cidade de Rio Pardo tentava trabalhar a aquarela da maneira exata. Mas, paralelamente, fazia uma série de trabalhos com apropriação das pichações urbano, que eram com preto, vermelho e branco. A preparação da tela era feita de maneira irregular, usando areia para parecer um muro, e era pintado com tinta spray preto, vermelho e branco. Pintava por cima, tal como as pichações urbanas com frases também usadas nas ruas. Sem criar nenhum elemento, usando um olhar de fotógrafo e não um olhar de pintor. Tinha umas inscrições com as letras ERDA que para mim gerava a palavra liberdade e as pessoas, frequentemente liam perda, merda , ou outra coisa do gênero. Interessava-me muito pela literatura concretistas, e isso ficou evidenciado nesses espaços de uma palavra. Usava também uns resquícios do I , X, O da palavra LIXO, que os pichadores faziam na rua, que, ao serem suprimidos, geraram o X. Era uma pintura muito carregada de pretos, vermelhos, e muito gestual.



Como tu descreverias tua pintura atual?

Eu a descrevo mais como um conceito da pintura do que propriamente exercicio de pintura. Porque tem cor, tem todos os elementos de pintura, mas fica a dúvida quem é que fez? Quem é o autor? É uma pintura que acontece por seleção e apropriação e não por desenvolvimento. A pintura sempre foi uma questão que envolve um fazer e aqui há somente uma escolha de onde cortar, selecionando a obra. É um exercício, de certa forma, que retoma antigos procedimentos, pois lembra os quadrados que Albrecht Dürer usava como janela para focar o objeto. É, em verdade, um exercício de desenho mesclado com um procedimento da seleção que faz o fotógrafo no exercício da fotografia. Confere ao processo um distanciamento e elimina a necessidade do “artesanato” do artista. Eu sempre fui muito artesão da pintura e então quis sair disso. Hoje, ela é muito mais um “olhar” do que um “fazer”.

Na escultura, na gravura é comum o trabalho coletivo, inclusive entregando toda uma parte do trabalho para a elaboração de terceiros, já na pintura, não. Sempre havia a mão do artista.

As pessoas questionam a pintura porque o artista não fez, "não é pintura porque o artista não concebeu", mas eu vejo isso no mesmo patamar da pintura de Pollock. Enfim, essa pintura me interessa porque tem capacidade de gerar algumas discussões, porém se elas vão ser válidas não sei. Mas me interessa que se discuta.

Eu me preocupo em pensar sobre pintura, em aproveitar o que fica de pintura no ateliê, montar esse material que tem uma interferência do olho e não do fazer. Ela começa já no final da década de 80, a partir de uma idéia bem simples que se configurou nos papéis com que eu forrava as paredes e o chão do atelier para evitar a sujeira. Desde esta época, eu ia guardando e depois os transformando em tela. Hoje, continuo fazendo isso, mas começa a entrar na idéia dos livros, da manipulação da imagem digital, muitas coisas que ainda não foram mostradas.



Fala um pouco do acaso e dos processos de apropriação da arte contemporânea, e como isto perpassa o teu trabalho.

A subjetividade não me interessa como pintura não. A “minha” pintura não precisa isso, pois o que me importa é o processo de fazer pintura, bem, na verdade, também não há muita novidade no produto gerado, mas só um jeito novo de chegar até ele.



E os materiais em tua pintura? Como se desenvolveram ao longo do tempo? O que tu usavas quando iniciastes e o que utilizas hoje?

Sou de uma geração em que acredito muito na capacidade do conhecimento em desenho, em pintura, em gravura.

Acredito na instrumentalização para fazer os trabalhos. Acho que não se discute mais pintura e processos e há uma confusão geral.



Em relação a tua outra atividade, sendo dono de uma loja que representa uma série de tradicionais marcas de materiais artísticos, fala um pouco de como te envolvestes com o comércio de materiais artísticos? E como se dá a relação do artista e do comerciante?

Depois que retornei da Alemanha comecei a pensar em fazer alguma coisa, o mercado havia mudado, e então comecei a comprar pigmento para vender para os amigos, no início tinha 30 produtos na loja. Primeiro foi no meu atelier e em 12 anos é um espaço aberto para todos. Para fazer a loja tive que me afastar de algumas pessoas que diziam que deste modo eu não seria mais artista, pois estaria substituindo uma coisa pela outra. Ser artista, para mim, não quer dizer estar 24h no atelier. Arte é resultado de um processo de vida, pode ser construída pela observação, com o olhar para as coisas, pode ser a idéia do pensar, resultado de uma vivência pessoal. Neste sentido, um exemplo para mim muito marcante é o trabalho do Flávio de Carvalho, que fez coisas maravilhosas com a trágica visão da morte de sua mãe.



Talvez seja interessante tu apresentares o tipo de comerciante que possibilita o artista e como a classe artística se beneficiou com isto, suprindo uma real necessidade em nossa cidade. Lembras-te das intermináveis brigas do Iberê Camargo pela liberação de impostos na importação de materiais artísticos?

E o espaço do professor de arte? Como inicia esta função educativa em tua vida profissional?

A real necessidade ela tem que ser analisada pelos outros. Eu sei qual é a intenção da loja perante a arte.

Se fosse simplesmente ter uma loja abriria uma franquia qualquer. Mas não era isso

Resolvi trabalhar com material artístico, provar que havia mais materiais, materiais bons e que se pode vender bem.

A primeira coisa que vendi foi gesso acrílico, que logo a seguir foi copiado pelas fábricas, depois veio a emulsão acrílica para ser usada no lugar da liquid base, que era um material muito ruim quimicamente, que tem baixa durabilidade quando usado em tela..

Quanto à briga do Iberê Camargo ia além dos materiais artísticos. Os custos tributários, no Brasil são muito grandes em relação a outros países e ao mesmo tempo temos carência de todos os serviços públicos: como educação, saúde, segurança.

Hoje os lojistas para chegar às fábricas européias e americanas barganham muito para conseguir vender os produtos, mesmo pagando 70% de imposto.

Descobri uma função prazerosa na década de 80, ela iniciou por necessidade e hoje a faço por puro prazer. Aqui na Koralle eu dou aulas sem nenhum custo. E aquela guerra que fiz com Malagoli está implícita nisto que faço, e, além disto, hoje, aquela fórmula está publicada em diversos livros. Considero a transmissão de conhecimento como parte de nossa obrigação social.



O que você falaria sobre o professor de arte na escola:

A situação em que os professores se encontram impossibilita a qualificação de suas aulas.

Esses impedimentos (muitas turmas, além de grandes turmas e espaços inadequados) impossibilitam que eles também estejam motivados para desenvolver atividades mais qualificadas. A diferenciação entre objeto artístico e processo artístico precisa estar clara para se trabalhar em sala de aula.



Poderias colocar a proposta da Koralle, que, inclusive, recentemente se ampliou com a parte da livraria?

A Koralle sempre buscou ser uma referencia no mercado para as pessoas que necessitam de materiais no seu fazer artistico , a ampliação com o patio de arte contemporanea , da livraria e das oficinas é uma misao a ser cumprida como agente transformador no espaço cultural e artistico da cidade



E finalizando: O que consideras imprescindível para o artista na experiência da arte que seja próprio do universo pictórico?

Conhecimento da história da pintura e da historia técnica , esta coisa que a gente é um criador e não necessita se basear no passado, só nos faz reinventar a roda , ou ser presunçoso em acreditar que se esta trilhando novas experiências, quanto mais conhecimentos técnicos e históricos tivermos , alem de nossas vivências , mais profundamente podemos pesquisar e nos colocarmos no exercício do pensar e fazer pintura ( Arte)



Espaço aberto para sua manifestação:

Acredito profundamente que o debate de ideias , o permerar-se com o conhecimento, a pesquisa histórica e técnica , a interação com outras áreas são capazes de gerar algo novo e com alcance.

Alem disto a experimentação constante e a nossa humildade diante do trabalho alheio , observando ele atentamente nos faz melhores e mais argutos no trabalho de criação que tentamos realizar e que por raras vezes alcançamos algum sucesso.

Aprendendo a ver o outro como um todo conseguimos ver um pouco de nos mesmos, e do nosso trabalho em arte.



Espaço aberto para sua manifestação:

Acredito profundamente que o debate de ideias , o permerar-se com o conhecimento, a pesquisa histórica e técnica , a interação com outras áreas são capazes de gerar algo novo e com alcance.

Alem disto a experimentação constante e a nossa humildade diante do trabalho alheio , observando ele atentamente nos faz melhores e mais argutos no trabalho de criação que tentamos realizar e que por raras vezes alcançamos algum sucesso.

Aprendendo a ver o outro como um todo conseguimos ver um pouco de nos mesmos, e do nosso trabalho em arte.


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