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  • Frantz Soares

Frantz: o exercício de olhar e eleger

Por Paula Ramos





Polêmico e provocador, Frantz (Rio Pardo, RS, 1963) é autor de uma vasta e inquietante obra, notória por subverter práticas e conceitos do campo da arte. O artista, que nos anos 1980 se notabilizou por explorar o instrumental e a linguagem das pichações urbanas, vem apresentando, desde a década passada, suas “pinturas não realizadas”. E aqui você pode se perguntar: “Como assim, pinturas não realizadas?” O fato é que, embora sua obra seja pintura, embora ministre aulas de pintura, embora discuta questões da esfera da pintura, Frantz não pinta. Seu trabalho parte da apropriação de fragmentos e restos de ateliê. Para ele, o ateliê é pintura.


No espaço em que orienta estudantes e artistas, paredes e chão são forrados com metros de tela de algodão, a mesma usada como suporte tradicional da prática pictórica. É nessa superfície que marcas, pinceladas e escorridos inerentes ao processo artístico vão se acumular ao longo de meses ou anos, até o dia em que Frantz decidir que a tela está pronta. Então a arrancará de sua base e, adotando um minucioso processo de edição, levará aos chassis o que antes era resquício; formatará livros com o que seria descartado na lixeira. Apropriando-se de resíduos, do que nunca pretendeu ser pintura, Frantz instaura sua poética no exercício de olhar e eleger. Exibindo esses fragmentos, pergunta: “Não é superfície e cor? Não é pintura?”. Ou, ainda: “O lixo que eu retiro do teu ateliê é meu ou é teu?” Há, nessas e em tantas outras indagações, o desejo constante de perturbar as certezas, de discutir os conceitos, atitude que Frantz assume com perspicácia e humor.


Ainda que desprovidas de qualquer conotação temática, as “pinturas não realizadas” do artista, em suas nódoas e sobreposições de manchas abstratas, encontrarão na fruição, no diálogo estabelecido com os espectadores e suas vivências, parte fundamental de seu sentido. É o que observamos nas obras que integram esta pequena exposição. Fixadas sobre amplas folhas de papel, delicadas faixas de tela imperam, matizadas por respingos ou suaves camadas de tinta. Algumas remetem a paisagens, outras a chuvas torrenciais, a neblinas espessas, à fluidez do “Ukiyo-e”, as imagens do mundo flutuante da tradição japonesa. Silenciosas e soberanas, essas obras nos convidam a percorrer espaços imaginários, quem sabe tempos distantes. Aspectos, porém, que são sempre resultado da conformação aleatória da matéria da pintura, da memória da pintura. E que Frantz, com seu olhar sensível e arguto, recolhe da experiência cotidiana, devolvendo-nos como poética.



Paula Ramos

Jornalista e Doutorando em História, Teoria e Crítica de Arte/UFRGS.

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