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  • Frantz Soares

Marcio Pizarro Noronha

Por Marcio Pizarro Noronha

Ano de 2001





Não falo aqui nem de sujeito nem de objeto, nem do pintor nem da pintura. Pensei em algo como o subjétil. Algo como um relevo, uma substância material da arte, um substrato, tal como já se encontrava nos tratados de Leonardo.


O que é isto?

Palavra que pertence ao campo denominado de pintura e que designa um entrdominio e uma substancia, encontravel apenas quando fazemos da pintura uma questão de pintura e tratamos de (re)encontrar a superfície no próprio suporte. Eliminando a distância entre o matérico e o objetual, as custas do desaparecimento do que denominamos de objeto representa-cional da pintura.



Vida e morte

Neste modo de deixar a pintura ir se fazendo só encontramos um corpo único e inteiro, como instantâneo de um sempre primeiro acontecimento, é sempre um nascimento, pois em cada momento se revela o irrepetível.

Este nascimento confunde-se visualmente com a morte, na medida em que Frantz nos oferece resíduos, peças mortas, lixos de ateliê. Mas essa morte é apenas jogo para convidar a evitar a má representação, o vício de encontrar um objeto em toda a exterioridade de nosso processo neural. Recusando o prazer facilitador do reconhecimento da representação mental e negando mesmo a sua existência a morte é apenas processo de desordem dentro da ampla ordem vital.

Uma estratégia do artista em criar um deslocamento que reconcilia vida e morte, tal como nas tradições místicas do Oriente e nas formas novas do conhecimento científico.

A metáfora auto-organizativa do ser vivo, que oscila entre o cristal e a fumaça, entre o estático-rígido e o evanescente-transitório, faz sentido e reverba por toda parte desta obra.



Forma e força

Portanto, a força do subjétil está na derrocada da questão da forma, não se deixando cair nas armadilhas da História da Arte sobre a semântica, sobre o sentido e sobre a representação. Não há signo na obra subjétil, somente jogo de forças não-representacionais.


Sendo isto, torna-se obra hermética-mente aberta - criando uma certa ordem a partir da desordem - e que se propõe a paralisar o jogo da tradutibilidade, tão freqüente no momento atual e no contexto local, onde a inserção acadêmica do artista deve sempre passar pelo aval da crítica e da teoria do campo significacional da obra de arte, pois que advém de métodos geralmente mimetizantes de interpretação. Por isso, obra dura, que não concede, tão difícil de comentar, de se deixar pôr nesta ordenação escrita.


Não de pode traduzir gestos do acaso em palavras ou frases. Apenas podem ser incorporados como inscrições e, portanto, como experiência.


A significação nesta obra só pode ser acedida pela indeterminação e pela contingência. O que é periférico no fazer artístico deixa de existir. Frantz não faz uma inversão estruturalista, transformando materiais em objeto artístico. Ele derruba as fronteiras entre o dentro e o fora. Mostrando-nos mais uma vez, como só o fazem os transgressores, o movimento que reunifica um no outro, e o dentro apenas como dobra do lado de fora. Não há lugar para essência da obra de arte - seja ela formal ou conceitual. Não há lugar para aparência da obra de arte. Fazendo dos materiais mortos um lugar de prazer estético, o artista derruba um grande muro, atravessa fronteiras. A tela e o papel, por vezes são peles perfuradas - incluem-se aqui os materiais como os gessos , as argamassas, a madeira, os cartões, os têxteis em geral - que deixam atravessar.


Mas também faz o uso daquilo que não deixa passar, ligas químicas, metálicos. Perfurações, passagens, aberturas, campos fechados de intensidades radiantes. Afecção e irradiação. Assim a forma da lugar à força.



Subjetivações

Este é um discurso de nomeação indireta, às vezes alude-se à história do artista, às vezes alude-se ao processo da pintura.


Mas isso está a serviço de outras coisas, tal como fazer passar o outro nesse intervalo entre um e outro, e esta passagem é como porta estreita, é como fresta, respiradouro dentro de um campo de intensa asfixia.


Sempre gostamos muito de receber uma ordem que diz respeito ao subjetivo.


Em matéria de arte isto sempre funciona, adjetivação, qualificação do narcisismo do artista e da sombra do teórico e do crítico. Aqui, não me interesso por isso. Essa qualidade não tem repouso nestes conjuntos diversos, O sujeito é traído constantemente e o objeto perdeu-se em linhas de fuga que também já desapareceram. Resíduo de resíduo. Desordem cirúrgica, fúria da desordem mas também “cerebratização deste encontro com o selvagem”, como talvez disséssemos de Lévi-Strauss, que nada percebia nas abstrações e nas cores, fora o que tivesse a dizer acerca da ordem cultural e simbólica.


Nestas ordenações de Frantz, a classificação interior é magma, tal como quando abrimos os livros sem palavras, fragmentos de um poética das cores dos elementos.


Entre o começo e o fim, os quais não os encontramos, temos sempre os supores, os substratos e as substâncias operando - transubstanciação.


A tradição do gesto artístico é a da transformação deste tempo em obra fixando o intraduzível numa certa ordem estética.


Mas o que me faz acreditar é o fato de que esta ordem, como num cruzamento com o próprio Frantz, tem função ritual, movida pela repetição, pela obsessão no esforço prolongado.


A estetização é um rito de inclusão desta desordem orgânica e desta doença do tempo.


A estetização e seu veículo formal - e a grande capacidade de Frantz de, sem passar pelo figurativo, incluir-se no domínio das formas - revelam a potência de uma ordem que se quer prioritariamente como rito e como superfície, gesto automático do artista e do mundo em que vive.



Márcio Pizzaro Noronha

Dr. Em Antropologia Social - USP

Dr. Em História Ibero-Americana - PUCRS

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