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  • Frantz Soares

O microcosmo pictural de Frantz

Atualizado: 26 de ago.

UM COMENTÁRIO SOBRE A OBRA DE FRANTZ


Por Julio Ghiorzi






O primeiro contato que tive com as obras desta exposição foi através do relato do próprio Frantz.


Contou-me de sua intenção em realizar pinturas [ pigmento+tela+chassi ] que não estivessem diretamente associadas à aptidão manual, virtuosismo ou domínio da artesania da pintura pelo artista. Pintura não realizada, nas palavras do próprio Frantz, que assim intitulou algumas das obras.


O procedimento inicial consistiu em forrar, cobrir toda superfície de seu ateliê com tela para pintura e papéis especiais para uso artístico.


O ateliê deveria seguir sua rotina e estas superfícies deveriam passivamente receber os respingos, sobras de gestos, outros acidentes e incidentes de percurso.


Tentei até então imaginar o resultado plástico desta experiência e visualizei algo que se aproximaria a gestos aleatórios, espaços e silêncios dentro da extensão da superfície/tela. Desenhos e gestos pueris, acúmulos de matéria pictórica...


Seria o relato mais interessante que o objeto plástico?


Qual a posição e importância do conceito operatório em relação à obra de arte?

Algumas perguntas começaram a se responder a partir do momento em que presenciei as obras acabadas. E a intenção inicial do artista foi apenas o ponto de partida para outras questões, possibilidades e conexões que não encerram aqui.


O conteúdo formal destes trabalhos é fundamentalmente obra do acaso. Exceto o enquadramento, pois as superfícies foram montadas em chassis num momento final. Finito. Preciso e racionalizado, tornando-se o enquadramento a própria assinatura do artista. Pensando a partir da obra de Iberê Camargo em que o quadro é a batalha, ou melhor, o resultado do embate entre artista e obra - figura e matéria, tinta e tela, erro e acerto, insatisfação, exaustão, paixão e horror - ,o trabalho de Frantz nos mostra não a batalha com suas sensações e sentimentos, mas os Campos de Batalha, como ele mesmo nomeou alguns trabalhos acontecidos na Alemanha entre 1990 e 1991.


As obras desta exposição são campos de batalha, mas agora sem os seus protagonistas, pois outras pessoas além do próprio Frantz participaram deste processo e algumas obras levam seus nomes.


A batalha está terminada. Resta apenas o território testemunho da rotina do estúdio. Mas não é paisagem devastada, terra arrasada, e sim um espaço ocupado por um processo de decantação de gestos e impurezas da não-intenção.


Depósito. Sedimentação. Clivagem.

O ateliê pode ser visto como metáfora do cosmo. Microcosmo com seus limites.

Respeitando e registrando o tempo natural, quase meteorológico por mais de 10 anos, parecendo uma eternidade, Frantz materializa o tempo real e põe em xeque os processos e soluções instantâneas na manufatura da obra de arte.


E por fim o artista faz simbolicamente o inventário/rescaldo de um dos redutos mais íntimos e tradicionais da produção em artes plásticas ao recolher sobras e objetos que servem para sua reflexão sobre os limites e autonomia da pintura. Ficando aqui o resíduo, o resultado, acúmulo e acaso, caos, pegadas e fósseis que podem, talvez, ser reconstituídos e reinterpretados por uma arqueologia subjetiva.

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