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  • Frantz Soares

Sobre pintura - Frantz

Por Mayra Martins Redin




Os trabalhos do artista Frantz têm varias portas de entrada. Entramos primeiramente pelo nome dado para esta exposição: “Sobre pintura”. Trata de provocar o pensamento sobre a pintura - sua história, seus conceitos - e trata das matérias que se sobrepõem e que compõem pinturas, neste caso as de Frantz: tinta, poeira, restos, pedaços. A palavra “sobre” fala daquilo que se coloca por sobre outra coisa, daquilo que está numa superfície e por cima de algo. Mas também fala de um assunto que desejamos acercar, que buscamos saber mais, que nos interessa. Encontramos nas pinturas e livros do artista estas duas maneiras de pensar a palavra “sobre” acontecendo ao mesmo tempo.


Este percurso que podemos fazer enquanto espectadores nos mostra que “Sobre pintura” trata de superfície – e das maneiras como podemos perceber uma superfície –, trata de escolha, recorte, edição de acasos – e das formas como o artista propõe e define jeitos de olhar -, e trata de pensar todos estes processos no que se refere a pintura – onde, como e quando a pintura acontece?


Proponho que entremos no trabalho de Frantz, agora, pela superfície, talvez a entrada mais imediata, aquela que acontece quando olhamos. Nosso olhar é capturado instantaneamente quando nos deparamos com suas grandes telas fixadas na parede. O mesmo acontece quando pegamos um de seus livros que por fora tem a cor crua de uma tela em branco e que ao serem abertos nos levam a usar os dedos e os olhos numa leitura ampla e minuciosa ao mesmo tempo. Esta entrada nos interessa: esse amor à primeira vista que nos leva a buscar novas maneiras de entrar (de percorrer) nos processos de onde advém isso que nos toma primeiramente pela via daquilo que vemos.


Sim, é bom de ver, de pegar, de demorar os olhos por estas superfícies. E talvez seja esta sedução que nos faça querer escutar uma história: a história do processo. Frantz forra os chãos, paredes e mesas dos ateliês (do seu e de outros artistas) usando o tecido clássico para tela. Lá, estes tecidos esticados permanecem por um tempo que não é determinado previamente. Por cima deles vão se sobrepondo materiais de forma aleatória, deixados sem intenção. São respingos de tinta, marcas de latas, pegadas, sujeira do dia a dia, arrastos, tudo o que cai. A hora de tirar os tecidos dos ateliês é escolhida pelo olhar de Frantz que, numa ordem de importância, seleciona, primeiramente, as partes que se tornarão telas e serão fixadas na parede. Depois, escolhe as partes que poderão se tornar livros e por final, dos restos que sobram destas escolhas, ele define tiras menores de tela que serão coladas em folhas de papel.


Há nos trabalhos, resquícios de passagens. Muitas cores sobrepostas, descombinantes - porque aproximadas pelo acaso - mas que por vezes geram uma composição interessante aos olhos - também aproximadas pelo acaso mas, principalmente, recortadas pelo olhar do artista que tem uma regra para defini-las: são as partes “onde a pintura acontece” -.

Há uma aposta no aleatório, mas também na edição. Estas são ações indispensáveis para que a pintura de Frantz aconteça, e é indispensável também que possamos perceber estas ações – do aleatório e da escolha – para nos colocarmos a pensar “Sobre pintura”.


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