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  • Frantz Soares

Técnica Mista sobre a tela

Por Mario Rohnelt

Ano de 2010





Frantz é um dos mais significativos artistas pintores surgidos na década de 1980. A produção que o tornou conhecido, definida por ele genericamente como “pichações”, traz como marca a letra “X” que no contexto dos anos finais da ditadura no Brasil carregava múltiplos significados, desde a “recusa” (oposição política) à “presença” (sinalização de estar presente – “eu estou aqui”) à “anulação” (negar valores impostos), entre outros. A maior parte dessas pinturas caracteriza-se pela utilização de um grupo limitado de cores: o preto, o vermelho e o branco, constituindo uma marca identificadora do artista. Durante anos Frantz explorou-a em inúmeras variações e configurações, em diferentes materiais, suportes e tintas, num processo contínuo de experimentações cujos resultados agregaram-se à sua extensa obra em transformação gradual.


A obra pertencente ao acervo da Fundação Vera Chaves Barcellos, que apresentamos nessa exposição, é parte do desenvolvimento recente do artista. À primeira vista afilia-se à evolução de uma genérica abstração expressionista americana dos anos 1950, com sua densa e pesada configuração overall de manchas esparsas. É tributária do espírito heróico deste período da história da arte e também da sua exaltada defesa do indivíduo, único e criador. Ao centro, levemente deslocada em direção à margem superior, há o domínio de uma imensa mancha vermelha irregular que se expande em respingos para os lados e para baixo. À esquerda desta mancha, mais discretas, veem-se duas grandes circunferências ocres incompletas e sobrepostas. A imagem é um adensamento de camadas, algumas mais definidas, outras submersas no caos das precedentes. Próximo da tela, o que se observa é uma superfície de acúmulos de matéria, densa, quebradiça e rugosa. Até onde podemos saber, o que Frantz nos apresenta como obra são os resíduos acumulados de tintas do piso do atelier onde trabalha com seus alunos. Sua obra é o que se poderia chamar de uma não-pintura. Sugere um não-fazer, contrário absoluto a toda secular tradição da pintura de marca autoral. Essa operação não fica clara para o espectador a menos que ele tenha acesso às informações sobre a elaboração da obra. O procedimento de Frantz, e suas decorrências conceituais, têm o espírito duchampiano do deslocamento criativo que dá surgimento à obra. O objet trouvé aqui se transforma numa peinture trouvé. Ironia bastante eficiente, porque nela a artista lida com a imensa memória cultural da história da pintura. Ao orientar o nosso olhar para uma apreensão artística do real, essa memória dilui as fronteiras entre construção deliberada e acaso fortuito. Esta é a carga conceitual habilmente operada pelo artista e que se esconde por trás de uma superfície animada pelo vigor – também por história e tradição – de marcas positivamente evidentes que associamos ao ato artístico, indelevelmente único e heróico, de fazer frente ao mundo através da arte.

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